Poeira estelar de 7 bilhões de anos é o material mais antigo encontrado na Terra

Poeira estelar de 7 bilhões de anos é o material mais antigo encontrado na Terra

17 de agosto de 2022 0 Por ucrhyan
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Conhecido como Meteorito de Murchison, ele guardava grãos produzidos no interior de estrelas antigas, que morreram antes mesmo do nosso Sol existir

Os cientistas identificaram o material mais antigo da Terra: poeira estelar de 7 bilhões de anos, escondida em um meteorito maciço e rochoso que atingiu nosso planeta há mais de 50 anos. Os resultados foram publicados on-line na revista Proceedings da National Academy of Sciences.

Essa poeira interestelar antiga, feita de grãos pré-solares (grãos de poeira que antecedem nosso Sol), foi espalhada pelo Universo por estrelas moribundas durante os estágios finais de suas vidas. Um pouco dessa poeira acabou chegando aqui na Terra através de um asteroide que colidiu com nosso planeta e produziu o meteorito de Murchison – cerca de 100 kg de rocha espacial que caiu em 28 de setembro de 1969, perto de Murchison, Victoria, na Austrália.

Novas análises de dezenas de grãos pré-solares do meteorito de Murchison revelaram uma faixa de idades, entre cerca de 4 milhões de anos mais antigas que o nosso Sol (que se formou 4,6 bilhões de anos atrás) até 3 bilhões de anos mais antigas que o Sol, relataram pesquisadores em um novo estudo..

Embora o Universo esteja repleto de poeira estelar flutuante, nunca foram encontrados grãos pré-solares em rochas aqui na Terra, isso porque o movimento das placas tectônicas, o vulcanismo e outros processos do tipo aqueceram e transformaram toda poeira pré-solar acumulada durante a formação da Terra, disse Philipp Heck, principal autor do estudo e curador associado de estudos meteorológicos e polares do Museu de Campo de História Natural de Chicago.

Quando grandes rochas espaciais se formam, elas podem acumular poeira estelar antiga, mas diferente dos planetas, muitos asteroides são formados a partir da nebulosa que deu origem ao Sol, e não sofreu nenhuma alteração desde então. Ou seja, seus grãos de poeira estelar nunca forma transformados em outro tipo de material.

A maioria dos grãos pré-solares mede no máximo cerca de 1 mícron de comprimento, mas os grãos que os cientistas analisaram para o estudo eram muito maiores, variando de 2 a 30 mícrons de comprimento.

“Nós os chamamos de pedregulhos”, disse Philipp. “Podemos vê-los com um microscópio ótico”.

Encontrando uma agulha no palheiro

Para o estudo, Philip e seus colegas examinaram 40 desses chamados pedregulhos encontrados no meteorito de Murchison, moendo pedaços da rocha espacial e adicionando ácido, que dissolveu minerais e silicatos e revelou os grãos pré-solares resistentes a ácidos.

“Eu sempre comparo com o ato de queimar o palheiro para encontrar a agulha”, disse Phillip.

Os pesquisadores usaram uma técnica de datação que mede a exposição dos grãos aos raios cósmicos durante sua jornada interestelar por bilhões de anos. No espaço, partículas de alta energia emanam de diferentes fontes, bombardeando e penetrando objetos sólidos que passam. Esses raios cósmicos reagem com a rocha para formar novos elementos que se acumulam ao longo do tempo. Medindo a quantidade de diferentes elementos nos grãos pré-solares, os cientistas podem estimar quanto tempo a poeira foi submetida aos raios cósmicos.

“É como colocar um balde do lado de fora de casa durante uma tempestade. Desde que a chuva caia a uma taxa constante, você pode calcular quanto tempo o balde ficou do lado de fora com base na quantidade de água da chuva que foi coletada”, explicou Phillip.

A maioria dos grãos – cerca de 60% – datava de cerca de 4,6 a 4,9 bilhões de anos atrás. Uma explicação possível para o porquê de haver tantos grãos dessa época é que eles eram todos o produto de uma pequena explosão de nascimento estelar em nossa Galáxia, que ocorreu cerca de 7 bilhões de anos atrás.

“E então demorou cerca de dois a dois bilhões e meio de anos para que essas estrelas se tornassem produtoras de poeira”, explicou Phillip. “Quando uma estrela se forma, ela não produz poeira. Durante a maior parte de sua vida, a estrela não produz poeira. As estrelas só produzem poeira no final de suas vidas.”

Esta descoberta apóia as descobertas de outros astrônomos que indicam um aumento dramático na formação de estrelas há cerca de 7 bilhões de anos, relataram os pesquisadores.

Além do mais, muitos grãos não estavam viajando sozinhos no espaço; eles viajaram em aglomerados. Outros estudos mostraram que grãos pré-solares são revestidos com uma película pegajosa de matéria orgânica, que poderia ter ‘cimentado’ esses aglomerados, disse Phillip.

Meteoritos que não cheiram bem

A moagem e a análise de pedaços de rochas espaciais também apresentaram aos pesquisadores um subproduto incomum – um cheiro forte e muito picante. A pasta de meteorito moído liberou um cheiro “como manteiga de amendoim podre”, disse a coautora do estudo Jennika Greer, estudante de graduação do Field Museum e da Universidade de Chicago.

“Nunca cheirei manteiga de amendoim podre”, disse Phillip. “Mas aquilo cheirava muito forte.”

Outro meteorito que foi adicionado recentemente à coleção do Field Museum, o Aguas Zarcas da Costa Rica, cheirava a vegetais podres, de acordo com os cientistas.

Compostos orgânicos voláteis em meteoritos rochosos, que são abióticos – não formados por organismos vivos – produzem esses odores distintos quando são aquecidos ou dissolvidos, disse Phillip.

E Murchison era um meteorito especialmente fedorento, disse Phillip. Quando ele visitou a cidade de Murchison em 2019 para o 50º aniversário da queda do meteorito, ele falou com pessoas que testemunharam o evento ou coletaram fragmentos da rocha espacial. Muitos deles tinham histórias para contar sobre o aroma característico do meteorito.

“Eles disseram que a cidade inteira cheirava a álcool destilado, um cheiro orgânico muito forte”, disse ele. “Mesmo aqueles que não tinham visto o meteorito, eles sentiram o cheiro.”