Lua de Saturno Titã tem ‘lagos fantasmas’ além de possíveis cavernas e sumidouros

Lua de Saturno Titã tem ‘lagos fantasmas’ além de possíveis cavernas e sumidouros

24 de outubro de 2019 0 Por Jonas Estefanski
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Imagine um mundo onde a chuva cai, se acumula em lagos e lagoas, infiltra nas rochas e evapora pra depois cair novamente. Não é da Terra que estamos falando, mas sim de Titã, lua de Saturno. Só há uma diferença: no caso de Titã, não é água que cai dos céus, mas sim metano líquido.

Para entender esse “ciclo do metano” que ocorre em Titã, duas equipes de pesquisadores analisaram dados da missão Cassini, finalizada em 2017 após sobrevoar mais de 100 vezes a intrigante lua de Saturno.

“Titã é o único mundo além da Terra onde vemos líquidos em abundância na superfície”, disse Rosaly Lopes, cientista planetária do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA. “Alguns de nós gostamos de chamar Titã de ‘a Terra do sistema solar exterior’ ”
“Titã é a lua mais interessante do Sistema Solar. Acho que isso me dará alguns inimigos, mas acho que é realmente verdade”, disse Shannon MacKenzie, principal autora de um dos novos estudos e cientista planetária do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins.

Ao analisar dados da missão Cassini, três características que se apresentavam como lagos de líquidos, parecem ter desaparecido em imagens posteriores, indicando que , ou as lagoas evaporaram ou seus líquidos teriam se infiltrado no solo. Esses “lagos fantasmas” podem ser evidências de mudanças sazonais em Titã.

Lagos e mares registrados pela sonda Cassini em 12 de dezembro de 2013.
Kraken Mare, o maior oceano de Titã encontra-se próximo do centro da imagem, na parte inferior.
Com formato de coração, à direita, encontra-se Ligeia Mare, o segundo maior oceano de Titã.
Créditos: NASA / JPL-Caltech / Agenzia Spaziale Italiana / USGS

Apesar dos pesquisadores terem se concentrado apenas em três pequenos lagos que parecem ter desaparecido, muitos lagos permaneceram visíveis durante todas as observações feitas por Cassini. No segundo estudo, os cientistas usaram dados de radar para estudar alguns lagos bem maiores.

Durante o último sobrevoo de Cassini sobre Titã, em abril de 2017, a espaçonave foi programada para coletar um tipo muito específico de dados, chamado de altimetria, sobre a região dos lagos para medir a altura de diferentes substâncias. Marco Mastrogiuseppe, um cientista planetário da Caltech, já havia usado dados semelhantes para medir as profundezas de alguns dos mares de Titã (corpos líquidos muito maiores) e a equipe da Cassini esperava que ele fosse capaz de fazer o mesmo com os lagos.


Mastrogiuseppe e seus colegas fizeram isso em seu novo artigo, identificando o fundo dos lagos com mais de 100 metros de profundidade e estabelecendo que seu conteúdo era dominado pelo metano líquido. “Percebemos que essencialmente a composição dos lagos é muito, muito semelhante à dos mares”, disse ele. “Acreditamos que esses lagos são alimentados por chuvas locais e, em seguida, essas bacias drenam o líquido”.

Lagos e lagoas de Titã, lua de Saturno.
Créditos: NASA / JPL-Caltech / ASI / USGS

Isso sugere que abaixo da superfície de Titã, ainda pode haver outra característica comum na Terra: as cavernas. Na Terra, muitas cavernas são formadas pela água que se infiltra em rochas como o calcário, criando nascentes, aquíferos, cavernas e sumidouros.

Titã é realmente um mundo geologicamente similar à Terra, e estudar as interações entre os corpos líquidos e a geologia é algo que realmente não conseguíamos fazer antes”, disse Lopes. “Os novos estudos começam a fazer isso acontecer, vendo as interações acontecendo ao vivo em outro corpo planetário.”

Claro, é muito mais difícil estudar essas interações de tão longe, em um mundo que nunca foi o foco principal de uma missão. “Estamos conversando sobre possíveis missões com exploradores robóticos que podem se infiltrar em tubos de lava e cavernas na lua e em Marte”, disse Lopes. “Poderíamos, no futuro, enviar um desses para rastrear esse terreno, entrar em cavernas e descobrir o que está por baixo?”

Tal missão provavelmente não acontecerá em breve, mas a NASA está considerando seriamente um projeto chamado Dragonfly, que pousaria um drone em Titã. Se aprovada, a missão seria lançada em 2025 e alcançaria Titã nove anos depois. E se a NASA não confirmar a Dragonfly, é bem provável que surja outro conceito de missão. “Titã é muito legal para não voltarmos pra lá”, disse MacKenzie.

Cassini pôde coletar dados com instrumentos de radar, infravermelho e luz visível. Titã é um dos maiores candidatos plausíveis para se encontrar vida fora da Terra.

Hoje (15) teremos uma transmissão ao vivo em nosso canal no Youtube para falar desse e de outros assuntos. Venha participar!

Imagens: (capa-ilustração/Jurick Peter/divulgação) / NASA / JPL-Caltech / ASI / USGS

 

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