Floresta de 290 milhões de anos “congelada no tempo” é descoberta no PR

Floresta de 290 milhões de anos “congelada no tempo” é descoberta no PR

20 de setembro de 2022 0 Por Jonas Estefanski
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Conjunto de 164 árvores chamadas licófitas, que alcançavam até 40 metros de altura, foi encontrado em região onde existiu o supercontinente Gondwana

Floresta fóssil foi encontrada o município de Ortigueira, no Paraná (Foto: Thammy Mottin/Arquivo pessoal)

Uma floresta de 290 milhões de anos, quando existia o antigo supercontinente Gondwana, foi encontrada fossilizada no município de Ortigueira, no Paraná. A vegetação, que contém 164 árvores da linhagem das licófitas, foi descrita em fevereiro na revista Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology.

As licófitas foram uma das primeiras plantas da Terra com vasos condutores de seiva. Esses seres vascularizados surgiram no Devoniano, entre 416 a 359 milhões de anos atrás, e são representados por espécies arbustivas, ainda existentes, e arborescentes, já extintas.

As plantas em questão podiam chegar a até 40 metros de altura, diz Thammy Ellin Mottin, estudante do Programa de Pós-Graduação em Geologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que descobriu a floresta em sua pesquisa de doutorado.

“As árvores estão preservadas dentro da rocha da exata maneira como viviam, ou seja, elas ainda guardam as características daquele ecossistema de cerca de 290 milhões de anos atrás”, conta a doutoranda, ao portal Ciência da UFPR

Um total de 164 árvores da linhagem das licófitas foram encontradas fossilizadas no município de Ortigueira, no estado do Paraná  (Foto: Thammy Mottin/Arquivo pessoal)
Um total de 164 árvores da linhagem das licófitas foram encontradas fossilizadas no município de Ortigueira, no estado do Paraná (Foto: Thammy Mottin/Arquivo pessoal)

A cientista se deparou com a floresta quando visitava afloramentos de rochas no norte do Paraná para coletar dados e amostras. Ela estava junto de seu orientador, Fernando Vesely, e de três pesquisadores norte-americanos que desenvolveram projetos com o grupo de pesquisa da UFPR. Depois do achado, o estudo teve suporte de Roberto Iannuzzi, professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Os pesquisadores analisaram todas as árvores em relação ao diâmetro do caule, altura, modo de preservação, morfologia, etc, e as mapearam com um GPS de alta precisão. Pela primeira vez no mundo, a equipe usou ainda um radar de penetração no solo para localizar as plantas debaixo da superfície.

Árvores de floresta de 290 milhões de anos ainda estão preservadas (Foto: Thammy Mottin/Arquivo pessoal)
Árvores de floresta de 290 milhões de anos ainda estão preservadas (Foto: Thammy Mottin/Arquivo pessoal)

A floresta de Ortigueira era banhada pelo antigo Oceano Panthalassa e, portanto, recebia água salgada do mar e água doce de rios — algo parecido com uma região de manguezal. Porém, fortes chuvas causaram uma inundação fluvial, levando grande quantidade de sedimentos até a área.

As árvores ficaram cobertas dos sedimentos e asfixiadas, fossilizando o lugar em questão de dias ou poucos anos. “O soterramento continuou até o ponto em que a parte superior das licófitas colapsou, deixando exposta parte do caule”, descreve a pesquisadora. “A parte interior do caule foi sendo removida pela ação da água e foi preenchida por sedimentos que ainda chegavam e que terminaram por soterrar completamente a floresta”.

 Floresta de 290 milhões de anos foi descoberta fossilizada no Paraná (Foto: Thammy Mottin/Arquivo pessoal)




Floresta de 290 milhões de anos foi descoberta fossilizada no Paraná (Foto: Thammy Mottin/Arquivo pessoal)

De acordo com Mottin, as licófitas da Euramérica deram origem a importantes depósitos de carvão que são explorados hoje em dia. “Com a abertura de minas e novas frentes de exploração de carvão naquela região, é relativamente comum a descoberta de licófitas preservadas in situ [fossilização no local original onde a floresta vivia]”, ela conta.

Até hoje, são conhecidos apenas mais dois locais com licófitas em posição original (vertical) datados da época de Gondwana. Um deles também está em território brasileiro — no Rio Grande do Sul — e o outro na Patagônia argentina. Mas em ambos o número de árvores é bem menor e seus caules têm deformações na vertical.