Estes túneis maciços foram escavados por uma preguiça gigante que viveu há 10.000 anos na América do Sul

Estes túneis maciços foram escavados por uma preguiça gigante que viveu há 10.000 anos na América do Sul

11 de maio de 2022 0 Por Jonas Estefanski
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Um mamífero gigante que viveu há 10.000 anos no Brasil cavou túneis gigantescos chamados “paleoburrows”. E cavar esses túneis exigia garras. Enormes.

O que poderia ter deixado aquelas marcas de garras gigantes?

Mas o que poderiam ser essas criaturas gigantes? Essa foi exatamente a pergunta que o professor de geologia Heinrich Frank se fez enquanto rastejava por um túnel misterioso descoberto em um canteiro de obras em Novo Hamburgo, Brasil.

Como era diferente de qualquer formação geológica que ele já tinha visto, Frank especulou que o túnel deve ter sido escavado por um ser vivo.

“Não há nenhum processo geológico no mundo que produza longos túneis com seção transversal circular ou elíptica, que se ramificam e sobem e descem, com marcas de garras nas paredes”, disse Frank ao Discover.

O que quer que fosse a enorme criatura, deixou enormes marcas de garras nas paredes e no teto deste túnel e de outros de tamanho semelhante encontrados na área. Nesse ponto, o professor lentamente recuou e disse aos trabalhadores da construção que estaria de volta em algumas semanas.

Frank, que trabalha como professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, cumpriu a promessa. Ele acabou nomeando os misteriosos túneis e identificando o animal mais provável de ter feito as escavações, não só dos túneis de Novo Hamburgo, mas também de milhares de outros no Brasil.

Caverna no estado de Rondônia explorada pelo geólogo Amilcar Adamy do Serviço Geológico Brasileiro. É a maior paletoca conhecida na Amazônia e tem o dobro do tamanho da segunda maior paletoca do Brasil. Adamy não conseguia pensar em nenhum processo natural que criasse uma estrutura tão deliberada.

Frank encontrou seu primeiro túnel no início dos anos 2000 e descobriu que outro cientista cunhou o nome “paleoburrows” para eles. Quando ele não conseguiu encontrar uma explicação para sua existência, isso o fez procurar por mais túneis para eventualmente descobrir a verdade. Até hoje, Frank e outros pesquisadores encontraram mais de 1.500 túneis só no Rio Grande do Sul, além de centenas em Santa Catarina. Muitos desses túneis se estendem por centenas de metros e têm vários galhos, e o maior deles tem 600 metros de comprimento, 1,80 metro de altura e até 1,5 metro de largura!

“Nessas tocas, às vezes você tem a sensação de que há alguma criatura esperando na próxima curva – isso é o quanto parece um covil de animais pré-históricos”, escreveu Frank.

Eventualmente, ele encontrou evidências suficientes para convencê-lo de que as paleoburrows foram provavelmente cavadas pela preguiça gigante, o segundo maior mamífero terrestre pré-histórico ao lado do mamute. A evidência primária são as marcas profundas de garras encontradas por Frank nas paredes de paleoburrows, como as que você vê na primeira foto acima. A maioria dos cientistas agora concorda que eles só poderiam ter sido feitos por uma preguiça gigante (Megatherium), e não por tatus gigantes menores, como alguns outros sugeriram.

Megatherium americanum é o nome científico de uma espécie extinta de preguiça gigante. O nome significa ‘grande besta da América’. Mas, apesar dessas criaturas se estenderem até 4,6 metros (15 pés) e pesarem cerca de 2.590 kg (5.709 libras), uma única preguiça terrestre teria passado grande parte de sua vida dedicada inteiramente à construção de túneis tão grandes e extensos quanto esses paleotocas. Então por que se incomodar?

Frank e sua equipe não têm certeza se as extensas cavernas foram usadas para escapar do clima, predadores ou umidade, mas mesmo essas explicações parecem improváveis. Afinal, uma toca muito menor serviria muito bem para esses propósitos, não é?

Será que vários indivíduos herdaram as tocas ao longo de gerações e continuaram aumentando a estrutura para torná-la tão enorme. Novamente, isso é algo que os pesquisadores precisarão confirmar por meio de outras observações.

Charles também coletou fósseis de Megatherium durante sua viagem no Beagle em 1832. As peças foram usadas para completar o esqueleto de Megatherium ainda hoje em exibição no Museu de História Natural de Londres.

Descobertos em 1787 por Manuel Torres na Argentina, os primeiros fósseis de M. americanum foram enviados para o Museo Nacional de Ciencias em Madrid, onde o esqueleto original ainda está em exposição.

Em 1796, o anatomista comparativo Georges Cuvier determinou as relações e a aparência do Megatério, estabelecendo que era uma preguiça. A princípio, ele acreditava que o animal usava suas enormes garras para subir em árvores, como as preguiças modernas, mas depois mudou sua hipótese para sustentar um estilo de vida subterrâneo, com as garras usadas para cavar túneis.

Megatherium americanum tinha até 10 vezes o tamanho das preguiças vivas, atingindo pesos de até quatro toneladas (semelhante a um elefante-touro atual).

Modelo de um Megatherium no Crystal Palace, Londres.

Apesar de suas enormes garras, o M. americanum era vegetariano. Isso foi confirmado através de análises químicas dos dentes do animal, que esclarecem o que ele comeu durante a vida. E também poderia significar que era um alvo mais fácil para – humanos.

Sim, sabemos que eles se sobrepuseram aos humanos no tempo, pois os fósseis de Megatherium foram encontrados com marcas de corte neles. Isso sugere que essas preguiças gigantes estavam no cardápio há milhares de anos, o que pode ter contribuído para sua extinção

Olhando para uma grande paletoca no Brasil.

Até agora, Frank e outros pesquisadores não encontraram fósseis dentro das cavernas, nem material orgânico ou depósitos minerais que pudessem ajudar a datar com mais precisão a criação exata das tocas. Mas a busca continua.