Em feito inédito, sonda japonesa detecta água gaseificada em asteroide

Em feito inédito, sonda japonesa detecta água gaseificada em asteroide

24 de setembro de 2022 0 Por Jonas Estefanski
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Água gaseificada com dióxido de carbono (CO2) foi encontrada presa em um cristal presente em amostra do asteroide Ryugu. A coleta foi feita pela sonda japonesa Hayabusa2, lançada em 2014 pela Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA).

O líquido continha sais e matéria orgânica que pertenciam ao corpo rochoso que originou a pedra espacial, conforme informa pesquisa publicada nesta quinta-feira (22) na revista Science.

As amostras devolvidas à Terra em 6 de dezembro de 2020 passaram por uma catalogação no Instituto de Ciências Espaciais e Astronáuticas da JAXA e por estudos em seis subequipes e dois institutos de curadoria de Fase 2.

Segundo a agência espacial japonesa, no corpo rochoso “pai” de Ryugu, a proporção de água na rocha diferia entre a superfície e o interior, com rochas mais profundas no subsolo contendo mais água. Cristais “em forma de recifes de coral” estavam crescendo do líquido que existia no interior desse “corpo parental”.

Ao todo, as análises foram realizadas em 17 partículas do asteroide. Os resultados mostraram que Ryugu é composto de material semelhante ao do Sol em termos de composição química, com partículas formadas na temperatura infernal de mais de 1.000 ºC.

“Acredita-se que essas partículas de alta temperatura se formaram perto do Sol e depois migraram para o Sistema Solar externo, onde se acredita que Ryugu tenha se formado”, explica a JAXA, em comunicado. “Isso indica que a mistura em grande escala de materiais ocorreu entre o Sistema Solar interno e externo no momento de seu nascimento”.

O campo magnético das amostras, por sua vez, revelou ser muito provável que o asteroide “pai” de Ryugu tenha nascido na escuridão do gás nebular, longe do Sol. Para entender melhor o que ocorreu, a equipe simulou computacionalmente toda a jornada do asteroide, desde o nascimento de seu “corpo parental” até sua destruição por um impacto catastrófico.

 Partículas formadas em ambientes de mais de 1000°C encontradas nas amostras de Ryugu (Foto:  Tohoku Univ.)
Partículas formadas em ambientes de mais de 1000°C encontradas nas amostras de Ryugu (Foto: Tohoku Univ.)


 A simulação revelou que a pedra original se acumulou cerca de 2 milhões de anos após a formação do Sistema Solar e, em seguida, aqueceu até cerca de 50°C nos 3 milhões de anos seguintes, resultando em reações químicas entre água e rocha do tamanho do impacto que a destruiu.

Os pesquisadores também mediram a dureza, a transferência de calor e as propriedades magnéticas das amostras, indicando que a coleta continha minerais magnéticos — “pequenos ímãs” que atuam como um “disco rígido natural”, registrando o campo magnético do passado.

 Micrografia óptica da maior amostra analisada do asteroide e (B) visão do interior da amostra (Foto: SPring-8, Tohoku Univ.)
Micrografia óptica da maior amostra analisada do asteroide e (B) visão do interior da amostra (Foto: SPring-8, Tohoku Univ.)

Havia ainda em um dos grãos do asteroide a presença de magnetita, um mineral de óxido de ferro, além de hidroxiapatita, minério feito de fosfato. De acordo com as análises, essa combinação teria se formado a uma temperatura inferior a 40 °C, considerada surpreendentemente baixa.

Nas áreas das amostras contendo hidroxiapatita, havia terras raras — um grupo de elementos químicos indispensável para fabricar ligas e vidrarias. “As terras raras ocorrem na hidroxiapatita do asteroide em concentrações 100 vezes maiores do que em outras partes do Sistema Solar”, conta Frank Brenker, que lidera a equipe, em comunicado.

O pesquisador observou ainda que todos os elementos dos metais de terras raras se acumularam em fosfato no mesmo grau. Segundo Brenker, isso, além de ser incomum, pode ser uma indicação de que Ryugu é um asteroide muito primitivo e um representante do início do Sistema Solar.