É verdade que um par de asteroides irão colidir com a Terra neste ano?

É verdade que um par de asteroides irão colidir com a Terra neste ano?

18 de fevereiro de 2019 0 Por Jonas Estefanski
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Apesar das notícias alarmistas e apocalípticas, as chances de um asteroide atingir a Terra são mínimas.

Nos últimos dias, um rumor ganhou força. Boatos dão conta que um par de asteroides, chamados Bennu e 2006 QV89, vão colidir com a Terra. Ambos foram marcados como apocalípticos e potencialmente prejudiciais aos seres humanos. Mas esses asteroides realmente afetarão nosso planeta?

O asteroide Bennu até ganhou um apelido um tanto quanto de mau gosto: asteroide do apocalipse. Descoberto em 1999 pelo projeto LINEAR (Lincoln Near-Earth Asteroid Research), que detecta e rastreia objetos próximos à Terra, o nome oficial de Bennu é “Asteroid 101955”.

“Asteroide do apocalipse”, como se não bastasse ser um nome de péssimo gosto, ao Bennu jamais foi dado essa alcunha pelos cientistas da NASA. A rocha espacial é classificada como “potencialmente perigosa”, mas essa é uma designação ampla que se aplica a muitos asteroides de tamanho suficientemente grande, cujas órbitas os aproximam da Terra, de acordo com um estudo conduzido pelo cientista da Universidade do Arizona, Dante Lauretta, que foi publicado ems 2015.

Eis uma descrição da NASA sobre o risco de impacto de curto prazo de Bennu:

“Especialistas em asteroides do Centro de Estudos de Objetos Próximo da Terra (CNEOS, na sigla em inglês) no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, em Pasadena, Califórnia, projetam que Bennu se aproximará o suficiente da Terra no próximo século para criar uma chance em 2.700 de impacto entre os anos 2175 e 2196. Em outras palavras, essas chances significam que há 99,963% de chance de o asteroide errar a Terra. Mesmo assim, os astrônomos querem saber exatamente onde Bennu está localizado o tempo todo”.

Mesmo que Bennu venha a atingir a Terra, o dano estaria longe de ser apocalíptico. Tal impacto seria devastador em escala local, com certeza. Mas os cientistas estimam que os asteroides precisam ter pelo menos um quilômetro de largura — cerca de duas vezes o diâmetro de Bennu  para causar uma catástrofe global.

Impacto com Vênus ou queda no Sol

A NASA conhece tão bem o asteroide Bennu em grande parte porque o asteroide é o alvo da missão de retorno de amostra OSIRIS-REx da agência. A OSIRIS-REx entrou em órbita ao redor da rocha espacial em 31 de dezembro, estabelecendo um recorde para o menor objeto já orbitado por uma nave espacial.

Os rumores sobre o “asteroide do apocalipse” davam conta que a colisão com Terra seria no dia 14 de fevereiro. E antes que digam que os cientistas podem ter errado nas contas, Bennu não irá colidir com a Terra. É mais provável, no entanto, que Bennu tenha um impacto sobre Vênus. Mas sua órbita pode mudar com o tempo. Lauretta e colegas destacaram no artigo de 2015: “Nossos resultados (…) indicam que Bennu tem 48% de chance de cair no Sol. A maior probabilidade de impacto para um planeta é com Vênus (26%). Há uma chance de que Bennu seja ejetado do Sistema Solar interior após um encontro próximo com Júpiter”.

2006 QV89

Os boatos que saltaram de Bennu para o asteroide 2006 QV89 são ainda mais alarmantes. Segundo esses boatos, a Agência Espacial Italiana (ASI) teria dito que 2006 QV89 seria um dos sete mais perigosos do século, de acordo com a Escala de Palermo (ou  “Palermo Technical Impact Hazard Scale”), que leva em conta o tamanho de cada objeto, a probabilidade de impacto e o tempo até a possível colisão. Segundo os estudos da ASI, alegam os rumores, chegaram à conclusão de que poderiam chegar ao nosso planeta na segunda-feira, 9 de setembro, às 9h03, na Espanha. Isso gerou algum alarme na população e inúmeros artigos que falam do potencial destrutivo e apocalíptico deste asteroide.

O 2006 QV89, descoberto em 29 de agosto de 2006 pelo observatório Catalina Sky Survey (CSS), pode ter uma chance de passar muito próximo da Terra (em termos astronômicos), contudo, as informações sobre esse objeto ainda são escassas devido ao seu pequeno tamanho. Embora em alguns meios de comunicação e rede sociais se diga que o 2006 QV89 atingirá nosso planeta, ainda não sabemos ao certo a trajetória do asteroide, que poderá passar a milhares ou milhões de quilômetros de distância de nós.

Muitas outras observações são necessárias para determinar com exatidão uma órbita mais precisa para o asteroide e, assim, determinar com maior rigor a ameaça quanto a um possível impacto com a Terra (se é que de fato há essa possibilidade). O 2006 QV89 é um asteroide do tamanho do campo de um campo de futebol.

“Com os dados que temos agora, a probabilidade de impacto é equivalente a sermos atropelados por um trem se atravessarmos uma linha sem olhar, sem ver e ouvir, mas sabendo que passa um trem a cada 15 horas”, explicou Ettore Perozzi, da ASI, segundo o jornal Los Andes.

Assim, mesmo que o 2006 QV89 viesse a colidir com a Terra, o impacto seria muito pequeno (o asteroide tem diâmetro de 20 a 50 metros) para causar sérios danos ao solo, o que também dependeria muito do ângulo de entrada na atmosfera para a colisão. Mas o que sabemos agora é que poderia vir a passar sobre a Terra a uma distância de cerca de 5 milhões de quilômetros de nós. Você pode verificar isso no gráfico de órbitas que pode ser encontrado na página Jet Propulsion Laboratory (JPL). Podemos escolher a data e ver a distância que o objeto estará passando.

A trajetória do 2006 QV89 é mostrada em branco na imagem assim (acesse o site com a simulação do JPL aqui). Um impacto deste asteroide é altamente improvável, pois há apenas uma chance de 0,4% de que as observações feitas em 2006 se encaixem na “órbita de impacto”. (Créditos da imagem: Reprodução/JPL NASA).

A trajetória do 2006 QV89 é mostrada em branco na imagem assim (acesse o site com a simulação do JPL aqui). Um impacto deste asteroide é altamente improvável, pois há apenas uma chance de 0,4% de que as observações feitas em 2006 se encaixem na “órbita de impacto”.

Sobre o 2006 QV89, Rüdiger Jehn, diretor do Departamento de Defesa Planetária da ESA, esclareceu: “Agora é muito longe para vê-lo e calcular sua órbita com mais precisão. A partir de julho, poderemos observar novamente com telescópios de 8 metros. Então saberemos se há risco de impacto ou, o que é mais provável, se não se supõe nenhum risco”, ainda segundo o Los Andes.

Mas não há nada para se preocupar também. As chances de colidir com a Terra são de 1 em 20 mil. Durante a conferência sobre detecção de asteroides e lixo espacial, realizada em Darmstadt, Alemanha, o assunto foi discutido, mas sem muita preocupação. Se materializado, não haveria perigo para a humanidade, embora que até julho a NASA conhecerá mais detalhes sobre o 2006 QV89.

Referências:

    1. LAURETTA, D. S. et al. “The OSIRIS-REx target asteroid (101955) Bennu: Constraints on its physical, geological, and dynamical nature from astronomical observations”; Meteoritics & Planetary Science, 2015. Acesso em: 15 fev. 2019.
    2. WALL, Mike. “No, Asteroid Bennu Won’t Destroy Earth”; Space. Acesso em: 15 fev. 2019.
    3. WALL Mike. “No, You Won’t See an ‘Apocalypse Asteroid’ in the Sky on Valentine’s Day”; Space. Acesso em: 15 fev. 2019.
    4. HOWELL Elizabeth. “Asteroid Bennu: Target of Sample Return Mission”; Space. Acesso em: 15 fev. 2019.
    5. SHHEKTMAN Lonnie. “Planetary Defense: The Bennu Experiment”; JPL News. Acesso em: 15 fev. 2019.
    6. Sentryy Earth Impact Monitoring: 2006 QV89”. Acesso em: 15 fev. 2019.
  1. Fonte