A Rússia vai reabrir a investigação de um dos maiores mistérios do mundo

A Rússia vai reabrir a investigação de um dos maiores mistérios do mundo

2 de março de 2019 0 Por Jonas Estefanski
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Procure “incidente do Passo Dyatlov” no Google e você vai encontrar algumas teorias incríveis sobre a morte enigmática de nove montanhistas.

 

o frio congelante do norte da União Soviética, em fevereiro de 1959, nove montanhistas fizeram um acampamento para passar a noite sob um pico dos Montes Urais conhecido como Kholat Syakhl, a Montanha dos Mortos.

O grupo estava percorrendo uma passagem recentemente descoberta batizada com o nome do líder deles, Igor Dyatlov. Mas eles não deviam estar ali. Os oito homens e duas mulheres acabaram nessa passagem depois de perder o rumo por causa das condições climáticas – eles tinham começado sua expedição de 16 dias há uma semana e estavam a uns 10 quilômetros fora de seu ponto de retorno.

No final daquela noite fria na Kholat Syakhl, os nove montanhistas estariam mortos – e a causa continua um dos mistérios mais populares da era moderna.

E agora a polícia russa finalmente reabriu o caso – conhecido coloquialmente como “incidente do Passo Dyatlov”. O anúncio veio em fevereiro da promotoria russa, que prometeu finalmente derrubar todas as teorias sobre as mortes dos montanhistas.

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O túmulo dos montanhistas. Foto via Wikimedia Commons.

“Todas as mortes estão de alguma forma ligada a um fenômeno natural”, disse Alexander Kurennoi, porta-voz da promotoria russa, em um vídeo do anúncio. Os russos dizem que um grupo de investigadores especializados está envolvido na reabertura. Apesar de fazer 60 anos desde que os corpos foram encontrados em posições estranhas e com ferimentos incomuns, Kurennoi disse que as pessoas ainda querem respostas.

“Parentes, a mídia e o público ainda querem que os promotores determinem a verdade, e não escondem suas suspeitas de que algo está sendo encoberto.”

Para entender por que o mistério do “incidente do Passo Dyatlov” sobreviveu por 60 anos, você não precisa ir além dos corpos. Toda a expedição – menos um montanhista que voltou antes por problemas cardíacos – morreu na mesma noite.

Apesar de a rota ser conhecida pela dificuldade, o grupo era formado por montanhistas experientes. Acampar na passagem não deveria ter se mostrado fatal para eles. Então, quando eles não retornaram em 20 de fevereiro, como esperado, uma equipe de busca foi procurar por eles.

Um pouco mais de uma semana depois da partida, o grupo de busca encontrou a barraca que os montanhistas tinham armado – ela estava abandonada e rasgada em um dos lados. O acampamento estava deserto, mas os montanhistas deixaram ali todos os seus pertences e sapatos. Eles parecem ter saído de lá às pressas pela neve na altura da cintura, deixando para trás oito pegadas, algumas de meias, algumas descalças, outras usando apenas um sapato. Os sinais no acampamento deixaram o grupo de busca perplexo.

Alguns dias depois, eles acharam os corpos.

Os primeiros corpos – de Yuri Doroshenko e Yuri Krivonischenko – foram encontrados a cerca de 1,6 quilômetro do acampamento, cercando uma pequena fogueira sob um pinheiro. Os dois estavam apenas com as roupas de baixo. Parecia que alguém tinha subido na árvore para tentar ver algo na distância. Perto dessa árvore, o grupo de busca encontrou os corpos de Rustem Slobodin, Zinaida Kolmogorova e do líder da expedição, Igor Dyatlov – parecia que esses três morreram tentando voltar para o acampamento.

Os últimos quatro só foram encontrados quando a neve derreteu dois meses depois – aparecendo numa ravina a 75 metros do pinheiro. Esses quatro estavam vestidos para o clima – ou seja, não apenas com as roupas de baixo.

Inicialmente, ninguém pensou muito sobre o incidente – fora que foi uma expedição que deu errado – já que a causa da morte dos cinco encontrados primeiro foi hipotermia. Mas a causa da morte daqueles que apareceram quando a neve derreteu é outra história. Três deles sofreram ferimentos graves. Lyudmila Dubinina foi encontrada sem olhos e sem a língua. Dubinina e Semyon Zolotaryov foram encontrados com grandes fraturas no peito, enquanto Nikolai Thibeaux-Brignolles estava com o crânio partido – os ferimentos eram parecidos com o que alguém sofreria num acidente sério de carro. Estranhamente, enquanto os ferimentos eram graves, supostamente não havia sinais externos nos corpos – parecia que eles tinham sido esmagados por alguma coisa.

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Yudin abraçando Dubinina antes de deixar a expedição. Foto via Wikimedia Commons.

Além dos corpos, mais coisas estranhas foram relatadas sobre as mortes – algumas mais razoáveis: traços de radiação nas roupas, corpos com coloração estranha, olhos e língua perdidos porque Dubinina foi encontrada num córrego; outras menos: pessoas viram globos laranjas na montanha na época, os corpos estavam envelhecidos prematuramente etc. – e como os soviéticos lidaram com o caso (as mortes foram consideradas “pelo poder espontâneo da natureza” e o caso foi fechado rapidamente) fizeram muitos especularem, até hoje, o que realmente aconteceu na montanha.

Uma avalanche? OVNIs? Hipotermia teria enlouquecido o grupo? Um abominável homem das neves? Mortos por uma tribo indígena que considerava a montanha sagrada? É só digitar incidente do Passo Dyatlov no YouTube onde você prefere ler suas conspirações hoje em dia. Há um monte de livros, documentários e equipes que analisaram o caso e nunca conseguiram realmente dizer o que aconteceu.

Uma das teorias mais persistentes é que as mortes foram causadas por um teste de armas soviético. Essas teorias variam tanto quanto as listadas acima. Alguns especulam que eles sem querer acabaram num campo de teste de bombas, e estavam correndo para escapar do bombardeio. Outros dizem que o exército estava testando armas radiológicas e que isso causou os ferimentos estranhos e a sensação de calor que fez os montanhistas se despirem.

Uma explicação, vinda do best-seller Dead Mountain, é que o vento corta o Kholat Syakhl de um jeito que produz sons que podem causar ataques de pânico em humanos. Isso teria feito os montanhistas fugirem da barraca e descerem a montanha correndo. Os ferimentos graves dos três corpos teriam sido causados pela queda na ravina.

Agora, esperamos, vamos ter uma resposta oficial.

promotoria disse que vai mandar os investigadores para o local das mortes. Você poderia achar que eles estão com as mãos cheias – até os russos reconhecem que há umas 75 teorias cercando as mortes – mas eles só vão investigar três explicações. Os promotores oficialmente descartaram qualquer explicação criminosa para as mortes, com Kurennoi dizendo “não há nenhuma prova, mesmo indireta, em favor da versão criminosa. Foi uma avalanche, uma laje de neve ou um furacão”.

Não vou mentir, acho que colocar a culpa das mortes numa “avalanche, laje de neve ou furacão” não está muito longe de “poder espontâneo da natureza”.

Fonte